Transmitida entre mães, filhas, avós e netas, a renda de bilro preserva a herança açoriana de Florianópolis e representa trabalho, convivência e autonomia para artesãs de diferentes comunidades
Florianópolis (SC) – Sobre uma almofada cilíndrica, fios presos por alfinetes começam a ganhar forma. Os bilros de madeira se cruzam rapidamente entre as mãos da artesã, produzindo um som característico. Aos poucos, linhas aparentemente soltas transformam-se em desenhos geométricos, flores, caminhos de mesa, aplicações para roupas e peças decorativas.
A cena, ainda presente em comunidades de Florianópolis, representa muito mais do que uma técnica artesanal. A renda de bilro guarda memórias familiares, conhecimentos transmitidos oralmente e histórias de mulheres que ajudaram a formar a identidade cultural da Ilha de Santa Catarina.
Introduzida na região com a chegada dos açorianos no século XVIII, a atividade foi incorporada ao cotidiano das comunidades pesqueiras. Enquanto os homens trabalhavam na agricultura e no mar, muitas mulheres produziam rendas para ornamentar as casas, preparar enxovais e complementar o orçamento familiar. Dessa relação surgiu a expressão popular “onde há rede, há renda”.
Um conhecimento aprendido pela convivência
Durante gerações, a renda de bilro foi ensinada principalmente dentro das casas. As meninas observavam mães, avós, tias e vizinhas movimentando os bilros e, pouco a pouco, aprendiam a preparar a almofada, posicionar os alfinetes, interpretar os moldes e controlar a tensão dos fios.
O aprendizado não dependia necessariamente de manuais. Era construído pela repetição dos movimentos, pelas conversas e pela convivência entre mulheres. Cada rendeira desenvolvia seu ritmo e sua maneira de trabalhar, embora os desenhos e pontos tradicionais permanecessem como referências coletivas.
Ao redor da almofada também circulavam relatos sobre a comunidade, receitas, cantigas, acontecimentos familiares e histórias relacionadas à pesca e às festas populares. Dessa forma, o artesanato ajudava a transmitir não apenas uma técnica, mas também modos de falar, lembrar e compreender o território.
A renda de bilro diferencia-se de outros bordados porque os pontos são formados diretamente pelo entrelaçamento dos fios, sem a necessidade de um tecido como base. Entre os modelos produzidos em Florianópolis estão as rendas Maria Morena, Tradicional, Céu Estrelado, Cocada, Margarida e Tramoia. Esta última utiliza sete pares de bilros e possui forte presença em localidades como Lagoa da Conceição, Ribeirão da Ilha, Armação e Pântano do Sul.
Mulheres que transformaram habilidade em trabalho
Historicamente, a comercialização das peças ajudava as famílias a enfrentar períodos de menor rendimento na pesca e na agricultura. Toalhas, caminhos de mesa, colchas e detalhes para roupas eram vendidos ou trocados por alimentos e produtos necessários ao cotidiano.
Esse trabalho, muitas vezes realizado dentro das residências e conciliado com os cuidados familiares, nem sempre recebeu o mesmo reconhecimento dado a outras atividades econômicas. Apesar da habilidade exigida e das muitas horas necessárias para concluir uma peça, a renda de bilro foi frequentemente tratada apenas como passatempo ou obrigação doméstica.
Para as artesãs, no entanto, a atividade sempre teve valor produtivo. A venda direta das peças, a participação em feiras e a organização em associações e núcleos comunitários permitem transformar o conhecimento tradicional em fonte de recursos e maior autonomia financeira.
O caso da rendeira Dulcemar Ondina da Cruz, divulgado pela Prefeitura de Florianópolis, exemplifica essa relação. Ela aprendeu o ofício ainda criança e continuou produzindo peças como atividade terapêutica e fonte de renda extra para as despesas do cotidiano. A participação em um núcleo de Santo Antônio de Lisboa também permitiu que deixasse o trabalho isolado em casa e passasse a conviver com outras artesãs.
Trabalho coletivo fortalece as artesãs
Os núcleos de rendeiras cumprem um papel importante na preservação da tradição. Esses espaços permitem que as participantes compartilhem moldes, materiais, experiências e oportunidades de comercialização.
A organização coletiva também ajuda a enfrentar dificuldades comuns, como o preço dos insumos, a divulgação das peças e a necessidade de encontrar novos compradores. Quando trabalham juntas, as rendeiras conseguem participar de exposições, feiras culturais, oficinas e projetos desenvolvidos em parceria com instituições públicas e organizações comunitárias.
O Centro Cultural Bento Silvério, conhecido como Casarão da Lagoa ou Casarão das Rendeiras, mantém atividades relacionadas ao ofício desde a década de 1990. O espaço tornou-se um ponto de encontro, aprendizado e intercâmbio entre artesãs da Lagoa da Conceição e de outras localidades.
Outro espaço criado para divulgar essa produção foi o Armazém da Renda, no Mercado Público de Florianópolis. Inaugurado como centro de referência, o projeto reuniu exposição, comercialização de produtos, acervo audiovisual e demonstrações do trabalho das rendeiras. Na época de sua implantação, os núcleos comunitários reuniam aproximadamente 300 artesãs.
Em Santo Antônio de Lisboa, a formação de um núcleo na Casa de Cultura Clara Manso de Avelar buscou organizar a produção, estimular o convívio social e ampliar a visibilidade das peças. A iniciativa também aproximou o artesanato de outras manifestações locais, como o boi de mamão, o Terno de Reis, o Pão-por-Deus e as celebrações do Divino Espírito Santo.
Um patrimônio espalhado pela Ilha
A renda de bilro não pertence a apenas um bairro. A tradição permanece presente em diversas comunidades de Florianópolis, especialmente onde ainda existem vínculos com a pesca artesanal e a ocupação açoriana.
Um projeto cultural realizado em 2025 reuniu rendeiras do Rio Vermelho, Ingleses, Forte, Sambaqui, Cacupé, Tapera, Campeche, Lagoa da Conceição, Canto da Lagoa, Rio Tavares, Costa da Lagoa, Barra da Lagoa, Canto dos Araçás, Armação e Pântano do Sul, além de participantes de outras localidades da Grande Florianópolis. A diversidade territorial demonstra que a atividade continua formando uma ampla rede de artesãs.
Cada comunidade mantém particularidades nos desenhos, nas formas de organização e nas histórias das rendeiras. Algumas artesãs trabalham com modelos tradicionais; outras adaptam os pontos para produzir brincos, colares, bolsas, roupas, acessórios e objetos de decoração.
Essas transformações não significam abandonar a tradição. Ao contrário, mostram que o conhecimento permanece vivo porque consegue dialogar com novas gerações, tendências e necessidades do mercado.
Arte, moda e inovação cultural
A aproximação entre rendeiras, artistas e profissionais do design tem aberto novas possibilidades para o artesanato. Projetos contemporâneos utilizam a renda em peças de vestuário, acessórios e criações artísticas, ampliando sua presença para além dos objetos domésticos tradicionais.
A exposição “Trama Viva – Rendas e Rendeiras de Florianópolis”, realizada em 2025 no Centro Cultural Bento Silvério, reuniu peças históricas e obras desenvolvidas de maneira colaborativa. O projeto incorporou técnicas de moda, reaproveitamento de materiais e criação compartilhada, apresentando a renda de bilro como patrimônio imaterial e tecnologia cultural viva.
A iniciativa também contou com as Rendeiras Cantadeiras, grupo que une o trabalho manual ao canto de ratoeira. A combinação reforça a ligação entre artesanato, oralidade, memória e território, mostrando que diferentes manifestações culturais podem se fortalecer mutuamente.
Para que essas parcerias sejam positivas, entretanto, é necessário reconhecer a autoria das rendeiras e garantir remuneração justa. Não basta utilizar a aparência da renda em produtos comerciais: é preciso valorizar quem domina a técnica e preserva o conhecimento.
Certificação busca proteger a produção local
Em junho de 2025, Florianópolis instituiu o Selo de Qualidade e Certificação das Rendas de Bilros do município. A medida busca identificar peças produzidas artesanalmente na cidade, garantir sua procedência e incentivar a produção e a comercialização. A legislação também incluiu outubro como o Mês das Rendeiras e dos Rendeiros de Florianópolis.
A certificação pode ajudar a diferenciar o trabalho artesanal de produtos industrializados ou importados que imitam a renda tradicional. Essa identificação é importante porque uma peça feita à mão pode exigir dias, semanas ou meses de trabalho, dependendo do tamanho e da complexidade do desenho.
Ao reconhecer oficialmente a origem das peças, o selo também pode contribuir para agregar valor, ampliar a confiança dos consumidores e fortalecer a participação das artesãs em feiras, lojas, exposições e projetos turísticos.
Desafios para uma tradição continuar viva
Apesar das iniciativas de valorização, a renda de bilro enfrenta desafios. Muitas artesãs são idosas, enquanto poucas jovens conseguem dedicar tempo suficiente ao aprendizado. A produção é lenta e exige concentração, mas o preço pago pelas peças nem sempre corresponde às horas de trabalho.
Também existe o risco de a renda ser utilizada apenas como elemento decorativo na divulgação turística da cidade, sem que as rendeiras participem dos benefícios econômicos gerados por essa imagem cultural.
Preservar o ofício exige mais do que expor peças antigas. É necessário manter oficinas gratuitas, apoiar os núcleos comunitários, criar espaços permanentes de venda, incluir o tema nas escolas e incentivar políticas de proteção ao artesanato tradicional.
A formação de novas rendeiras é especialmente importante. Quando uma artesã ensina uma criança, uma jovem ou uma vizinha, ela garante que os conhecimentos não desapareçam. Cada novo aprendizado prolonga uma corrente iniciada muitas gerações antes.
Autonomia construída fio por fio
Para muitas mulheres, fazer renda significa ter um rendimento próprio, participar de decisões familiares e manter uma atividade produtiva mesmo depois da aposentadoria. Também representa sair do isolamento doméstico, estabelecer amizades e ocupar espaços culturais e comerciais da cidade.
A renda obtida com as vendas pode ser complementar, mas seu significado ultrapassa o valor financeiro. Ela reforça o reconhecimento da artesã como trabalhadora, criadora e detentora de um conhecimento especializado.
Ao cruzar os bilros, as rendeiras de Florianópolis unem passado e presente. Seus trabalhos carregam as marcas das comunidades, das famílias e das mulheres que transformaram fios em sustento, memória e identidade.
Valorizar a renda de bilro significa reconhecer que o patrimônio cultural não existe sozinho. Ele permanece vivo pelas mãos de pessoas que continuam ensinando, criando e trabalhando. Em cada peça concluída, há uma história da Ilha — delicada na aparência, mas sustentada pela força de gerações de mulheres.

