Separados pelas cores, pelos estádios e pela rivalidade centenária, Leão da Ilha e Furacão do Estreito formam um dos patrimônios esportivos mais importantes de Santa Catarina
Florianópolis é conhecida pelas praias, pela cultura açoriana, pela pesca artesanal e pela qualidade de vida. Entretanto, existe outra tradição profundamente ligada à identidade da capital catarinense: o futebol. Em diferentes bairros, famílias inteiras dividem-se entre o azul e branco do Avaí e o preto e branco do Figueirense.
A rivalidade ultrapassa as quatro linhas. Ela aparece nas bandeiras colocadas em janelas, nas camisas usadas pelas ruas, nas discussões entre amigos e nas histórias transmitidas de pais para filhos. Quando os dois clubes se enfrentam, a partida é apresentada oficialmente como o Clássico de Florianópolis, confronto considerado pela Federação Catarinense de Futebol o mais tradicional do estado.
Apesar da rivalidade, Avaí e Figueirense compartilham uma responsabilidade: representar uma capital que teve participação decisiva na organização e no desenvolvimento do futebol catarinense.
Figueirense nasceu no coração da cidade
O Figueirense Futebol Clube é o mais antigo dos dois grandes times da capital. Fundado em 12 de junho de 1921, surgiu no antigo bairro da Figueira, na região central de Florianópolis. O nome escolhido pelos fundadores manteve viva a ligação com o local onde o clube começou sua trajetória.
Com o passar dos anos, o alvinegro estabeleceu sua principal casa no bairro Estreito, na parte continental da cidade. O Estádio Orlando Scarpelli tornou-se uma referência urbana e afetiva para a região, além de aproximar o clube das comunidades do continente.
O estádio recebeu esse nome em homenagem ao dirigente Orlando Scarpelli, que presidiu o clube e doou o terreno destinado à construção da praça esportiva. A história oficial do Figueirense registra que a doação fazia parte de um acordo pelo qual os dois grandes times da capital seriam beneficiados com áreas para seus estádios.
Conhecido como Furacão do Estreito e Time do Povo, o Figueirense construiu uma das trajetórias mais vitoriosas do futebol estadual. O clube possui 18 títulos do Campeonato Catarinense, conquistados entre 1932 e 2018.
No cenário nacional, um dos capítulos mais marcantes ocorreu em 2007, quando o alvinegro chegou à final da Copa do Brasil. O vice-campeonato colocou Florianópolis no centro das atenções esportivas do país e permanece entre as campanhas mais importantes da história do clube.
Avaí nasceu entre os jovens da Agronômica
O Avaí Futebol Clube foi fundado em 1º de setembro de 1923. Sua origem está relacionada a um grupo de jovens que jogava futebol na antiga localidade de Pedra Grande, atual bairro da Agronômica. O time informal ganhou organização e transformou-se em uma das maiores instituições esportivas de Santa Catarina.
O clube ficou conhecido como Leão da Ilha, expressão que reforça sua ligação com a parte insular de Florianópolis. Depois de atuar durante décadas no antigo Estádio Adolfo Konder, na área central, o Avaí transferiu sua casa para o Sul da Ilha.
O Estádio Doutor Aderbal Ramos da Silva, popularmente chamado de Ressacada, foi inaugurado em 1983. Localizado no bairro Carianos, próximo ao Aeroporto Internacional de Florianópolis, o estádio possui capacidade informada pelo clube para aproximadamente 17,8 mil torcedores.
O Avaí chegou a 19 conquistas do Campeonato Catarinense ao vencer a edição de 2025, isolando-se como o maior campeão estadual. Também possui um título nacional: o Campeonato Brasileiro da Série C de 1998, campanha que marcou o retorno do clube a uma posição de maior destaque no futebol brasileiro.
Um clássico que divide a Ilha e o continente
A geografia ajuda a tornar a rivalidade ainda mais particular. De um lado está a Ressacada, no Sul da Ilha; do outro, o Orlando Scarpelli, no continente. Os estádios representam regiões diferentes de Florianópolis, mas recebem torcedores vindos de toda a cidade e de municípios vizinhos.
O Avaí tornou-se fortemente associado à Ilha, enquanto o Figueirense consolidou uma relação histórica com o Estreito e os bairros continentais. Essa identificação territorial não funciona como uma divisão absoluta, pois existem avaianos no continente e alvinegros em todas as regiões da Ilha. Ainda assim, ela acrescenta uma característica urbana própria ao clássico.
Nos dias de confronto, a rotina da cidade muda. O movimento cresce nos arredores dos estádios, bares e restaurantes recebem grupos de torcedores, vendedores trabalham nas ruas e as camisas dos clubes ocupam ônibus, calçadas e estabelecimentos comerciais.
Em 2026, a rivalidade voltou a decidir uma competição estadual. Avaí, campeão catarinense de 2025, e Figueirense, vencedor da Copa Santa Catarina do mesmo ano, disputaram a Recopa Catarinense na Ressacada. O Leão venceu por 4 a 2 e ficou com o título.
O resultado acrescentou mais um capítulo a uma história marcada por decisões, viradas, provocações e personagens que entraram para a memória das duas torcidas.
Dois clubes em momentos nacionais diferentes
Na temporada de 2026, os representantes da capital enfrentam realidades diferentes no Campeonato Brasileiro. O Avaí disputa a Série B e mantém o objetivo de retornar à principal divisão nacional. A Ressacada recebe regularmente partidas da competição, mantendo Florianópolis no calendário da segunda divisão brasileira.
O Figueirense disputa a Série C, tendo como objetivo recuperar espaço no cenário nacional e voltar à Série B. A própria campanha institucional lançada pelo clube para 2026 colocou o acesso como prioridade da temporada.
O alvinegro também atravessa um processo de reorganização institucional. Constituído como Sociedade Anônima do Futebol, o clube passou a discutir novos investimentos e mudanças na estrutura administrativa, buscando recuperar estabilidade e capacidade de competir em níveis mais elevados. Em julho de 2026, a direção informou que ainda trabalhava na conclusão dos procedimentos jurídicos relacionados à negociação das ações da SAF.
As divisões nacionais são diferentes, mas a cobrança das torcidas possui intensidade semelhante. Avaianos esperam o acesso à Série A, enquanto os alvinegros desejam o retorno às divisões superiores e a reconstrução de uma trajetória que já levou o Figueirense a disputar várias temporadas na elite.
Categorias de base mantêm a renovação
A importância dos clubes não está restrita às equipes profissionais. Avaí e Figueirense mantêm categorias de base que disputam competições estaduais e nacionais, oferecendo formação esportiva para jovens atletas.
Em 2026, os dois clubes continuaram presentes em campeonatos catarinenses das categorias sub-15 e sub-17. O Avaí também participou de torneios nacionais de formação, enquanto o Figueirense manteve atividades em seu Centro de Formação e Treinamento do Cambirela, localizado em Palhoça.
A formação de jogadores possui importância esportiva e econômica. Um atleta revelado pelo clube pode chegar à equipe principal, gerar identificação com a torcida e, posteriormente, representar uma fonte de receita em uma transferência.
Mas a base também desempenha uma função social. Os jovens recebem acompanhamento técnico, físico e educacional e aprendem a lidar com disciplina, trabalho coletivo e responsabilidades. Embora poucos alcancem o futebol profissional, a experiência pode contribuir para diferentes caminhos pessoais e profissionais.
Futebol feminino precisa ganhar mais espaço
O crescimento do futebol feminino apresenta outro desafio para as instituições da capital. O Figueirense já realizou projetos de formação de base feminina e obteve conquistas no futebol 7, incluindo títulos nacionais.
Para que a modalidade avance de maneira permanente, porém, são necessários calendário, estrutura, investimento, divulgação e continuidade. Florianópolis possui atletas, escolas, projetos comunitários e equipes amadoras capazes de formar uma base mais ampla para o desenvolvimento feminino.
O fortalecimento da modalidade também passa pela presença das mulheres fora de campo, em áreas como treinamento, arbitragem, gestão, comunicação, preparação física e direção esportiva.
Muito além de Avaí e Figueirense
Embora os dois clubes profissionais sejam os maiores símbolos do futebol da capital, a história esportiva de Florianópolis é mais ampla. A própria Federação Catarinense de Futebol nasceu em 1924, durante uma reunião realizada no então Gymnasio Catharinense, atual Colégio Catarinense.
Participaram daquele encontro representantes do Atlético Florianópolis, Figueirense, Internato, Trabalhista e Avahy, grafia utilizada na época. O registro mostra que a cidade já possuía uma vida futebolística organizada e diversificada durante as primeiras décadas do século XX.
Atualmente, o futebol amador continua presente nos bairros, praias e comunidades. Campos comunitários recebem torneios, partidas entre amigos e competições que mantêm o esporte próximo dos moradores. Nesses locais, surgem jogadores, treinadores, dirigentes e torcedores que ajudam a renovar a cultura futebolística da cidade.
O futebol de várzea também preserva vínculos comunitários. Muitas equipes representam localidades específicas e tornam-se espaços de encontro, convivência e pertencimento.
Estádios são patrimônios afetivos da capital
Ressacada e Orlando Scarpelli não são apenas locais onde acontecem partidas. Os estádios guardam memórias pessoais e coletivas: a primeira vez em que uma criança viu seu time, o jogo decisivo acompanhado com os pais, o gol comemorado nas arquibancadas e o encontro com amigos antes da partida.
O Scarpelli representa uma parte importante da identidade continental. A Ressacada, cercada por bairros do Sul da Ilha, consolidou-se como um dos principais equipamentos esportivos da região.
Preservar e modernizar esses espaços é fundamental para melhorar a segurança, a acessibilidade e a experiência do público. Os estádios também podem receber atividades culturais, visitas históricas, eventos comunitários e ações que aproximem os clubes de seus torcedores durante todo o ano.
Uma rivalidade que também movimenta a economia
O futebol profissional gera uma cadeia que vai além dos atletas e das comissões técnicas. Partidas movimentam trabalhadores de segurança, limpeza, transporte, alimentação, imprensa, fotografia, comércio e produção de eventos.
Camisas, bandeiras, produtos licenciados e campanhas de associação também fazem parte da economia dos clubes. Ao mesmo tempo, bares e restaurantes utilizam as transmissões como forma de atrair público, especialmente nos clássicos e nas partidas decisivas.
A força econômica depende diretamente do envolvimento dos torcedores. Por isso, programas de sócios, ingressos acessíveis, transparência administrativa e identificação com a comunidade são elementos importantes para a sustentabilidade das instituições.
Patrimônio esportivo de Florianópolis
Avaí e Figueirense atravessaram diferentes fases: títulos, acessos, rebaixamentos, crises administrativas, grandes campanhas e reconstruções. Apesar das mudanças, os clubes permanecem entre as instituições mais reconhecidas da capital.
O Avaí carrega a força do Leão da Ilha, a Ressacada e a condição de maior campeão catarinense. O Figueirense leva consigo a tradição do Time do Povo, o Orlando Scarpelli, seus 18 títulos estaduais e a memória da histórica campanha na Copa do Brasil.
Separados pelas cores e pela rivalidade, os dois clubes compartilham uma missão comum: manter Florianópolis relevante no futebol brasileiro. Mais do que equipes profissionais, eles representam famílias, bairros, gerações e diferentes formas de viver a cidade.
Na capital catarinense, o futebol não começa quando o árbitro apita. Ele está presente durante a semana inteira, nas conversas, nas camisas e na expectativa pelo próximo jogo. É uma história centenária que continua sendo escrita, alternadamente, em azul e branco ou em preto e branco.

